Por que estamos polarizados, de Ezra Klein - resenha do livro
Klein traça como as mudanças demográficas, a segregação geográfica e as câmaras de eco midiáticas criaram a América polarizada de hoje — uma resposta baseada em dados para explicar por que não conseguimos mais falar sobre política.
Peguei "Why We're Polarized" de Ezra Klein em parte por curiosidade e em parte por autopreservação. Depois de me mudar de Singapura para a Bay Area, me vi completamente desconcertado com as conversas políticas americanas. Em Singapura, a política existe, claro, mas não consome cada jantar, cada grupo de família no WhatsApp, cada interação aleatória no supermercado do jeito que parece acontecer aqui. Eu precisava de um framework para entender o que estava acontecendo, e o livro do Klein acabou sendo muito útil para isso.
O que o livro aborda
Klein traça a história da polarização política nos EUA até a Guerra Civil, o que achei fascinante. Preciso admitir que meu entendimento da história política americana era envergonhosamente superficial antes disso — eu conhecia as linhas gerais, mas não a mecânica de como os partidos se dividiram nos campos ideológicos que vemos hoje.
O argumento dele se apoia em três fatores principais:
Mudança demográfica. A América está se tornando cada vez mais diversa em termos raciais e étnicos, e isso está remodelando o cenário político. Klein sustenta isso com dados mostrando como essas mudanças estão alterando a identificação partidária. Vindo do Sudeste Asiático, onde a diversidade étnica é simplesmente o padrão (Vietnam, Singapura, Malásia — todos navegamos em sociedades multiétnicas à nossa própria maneira), foi interessante ver como as mudanças demográficas se desenrolam de forma tão diferente num sistema bipartidário.
Segregação geográfica. As pessoas estão escolhendo cada vez mais viver perto de pessoas com pensamentos semelhantes. Esse ponto me tocou de perto. A Bay Area é famosa por ser progressista, e posso dizer — depois de morar aqui por um tempo, consigo ver como é fácil presumir que todo mundo pensa da mesma forma. Quando visito outras partes dos EUA, o contraste é gritante. Klein argumenta que isso cria comunidades politicamente mais homogêneas que reforçam as crenças existentes, e acho que ele está certo nisso.
Câmaras de eco midiáticas. A ascensão da TV a cabo e das redes sociais tornou possível consumir apenas informações que confirmem o que você já acredita. Acho que essa é a parte mais identificável do livro para qualquer um que passou tempo rolando o feed do celular. Klein é bom em explicar isso sem ser pregativo a respeito — ele mesmo é jornalista, então tem uma visão clara de como funcionam os incentivos da mídia.
O que gostei
Klein é um pensador rigoroso. O livro é denso em dados e pesquisas, mas ele escreve de um jeito que mantém a leitura fluida — o que não é pouca coisa. Posso estar errado, mas acho que esse é o tipo de livro que seria útil independentemente de onde você se posiciona politicamente. Ele não está tentando apontar culpados num lado só. Está tentando explicar o sistema em si, e achei isso revigorante.
O que acho que falta
Se tenho uma crítica, é que o livro é muito centrado nos EUA (o que faz sentido, afinal é sobre a polarização americana). Mas da minha perspectiva como alguém que viveu em vários países, fiquei querendo que ele explorasse se essas dinâmicas são exclusivas dos EUA ou fazem parte de uma tendência global mais ampla. Vejo padrões semelhantes na política do Sudeste Asiático, nas eleições europeias, até no discurso online em todo o mundo. Acho que há uma história maior aqui que Klein apenas esboça.
Quem deveria ler
Se você é um expatriado morando nos EUA e se sente confuso com a intensidade das divisões políticas americanas, este livro é um bom ponto de partida. Ele não vai te dizer o que pensar, mas vai te ajudar a entender as forças estruturais em jogo. E se você é americano e está se perguntando por que o jantar de Ação de Graças virou um campo minado — bem, o Klein tem algumas respostas para isso também :P
Você leu esse? Adoraria ouvir como foi para você, especialmente se estiver lendo de fora dos EUA.
Abraços,
Chandler




